A Corrida Global da Inteligência Artificial: Estratégias, Investimentos e Implicações Geopolíticas
- Time ALGOR

- 21 de ago. de 2025
- 8 min de leitura

Resumo
A inteligência artificial (IA) emergiu como um pilar central na competição geopolítica global, transcendendo sua origem em laboratórios de pesquisa para se tornar um campo de batalha entre nações. Este artigo científico examina a dinâmica da corrida global pela supremacia em IA, com foco nas abordagens estratégicas, investimentos e desafios enfrentados pelos principais atores: Estados Unidos, China e Europa. Analisaremos como cada um busca liderar neste domínio transformador, as implicações econômicas e sociais, e as complexas interações de rivalidade e cooperação que definem o cenário futuro da IA.
Palavras-chave: Inteligência Artificial (IA), competição geopolítica, Estados Unidos, China, Europa, estratégias de IA, investimento em IA, desenvolvimento de talentos, soberania tecnológica, regulação de IA.
1. Introdução
A inteligência artificial não é mais uma mera inovação tecnológica; é uma força motriz para o crescimento econômico, a segurança nacional e a influência global. O status de futura superpotência mundial será moldado pela dominância em IA, e, atualmente, essa disputa é travada principalmente entre os Estados Unidos e a China. Ambos os países estão investindo bilhões no desenvolvimento da IA para assegurar a supremacia tecnológica. Contudo, a Europa, embora possua pontos fortes consideráveis, corre o risco de ser marginalizada, enfrentando a necessidade urgente de consolidar sua estratégia em IA. Este artigo aprofunda as abordagens, os investimentos e os desafios de cada um desses atores na corrida da IA, destacando tendências globais e as implicações para o cenário econômico e geopolítico.
2. Os Estados Unidos: Inovação Impulsionada pelo Setor Privado
Os Estados Unidos consolidaram sua liderança em inovação de IA graças a instalações de pesquisa de ponta, empresas de tecnologia disruptivas e investimentos massivos do setor privado.
• Liderança em Investimento Privado: Em 2024, o investimento privado em IA nos EUA atingiu US$ 109,1 bilhões, um valor 11,7 vezes maior que o da China (US$ 9,3 bilhões) e 24,1 vezes maior que o do Reino Unido (US$ 4,5 bilhões). Desde 2013, investidores privados norte-americanos já destinaram mais de US$ 400 bilhões à IA. Aceleração do investimento privado em IA nos EUA é de quase 50% desde 2023, enquanto a China viu um declínio de 1,9% no mesmo período.
• Empresas Chave: Empresas líderes como OpenAI, Google, Meta e Anthropic têm sido fundamentais no avanço das tecnologias de IA, especialmente em processamento de linguagem natural, aprendizado de máquina e automação. Em janeiro de 2025, OpenAI, SoftBank e Oracle anunciaram a Stargate, uma parceria histórica com um investimento inicial de US$ 100 bilhões, com planos de expansão para US$ 500 bilhões, visando construir a maior infraestrutura de IA da história nos EUA.
• Apoio Governamental: O governo dos EUA também tem aumentado seu apoio à IA. A Lei CHIPS (Creating Helpful Incentives to Produce Semiconductors) e Ciência, aprovada em 2022, aloca US$ 280 bilhões para pesquisa e fabricação de tecnologias-chave, incluindo US$ 52 bilhões para semicondutores, reconhecendo que o controle da fabricação de chips é vital para a liderança em IA.
• Abordagem Descentralizada e Desafios: O ecossistema de IA americano prospera na descentralização, com múltiplos concorrentes impulsionando os limites da tecnologia, o que tem gerado desenvolvimentos rápidos em diversas áreas, da saúde à defesa. No entanto, essa abordagem pode levar empresas a priorizar ganhos de curto prazo em detrimento de objetivos estratégicos de longo prazo, podendo comprometer planos nacionais de desenvolvimento em IA.
3. China: Expansão Estratégica Liderada pelo Estado
A China adota uma abordagem distinta no desenvolvimento da IA, priorizando-a como um imperativo nacional e integrando-a em suas políticas governamentais e planos industriais. O objetivo é se tornar a líder global em IA até 2030.
• Investimento Liderado pelo Estado: O governo chinês tem investido substancialmente, com um fundo de investimento em IA de US$ 8,2 bilhões lançado em resposta aos controles de comércio dos EUA. Ao longo da última década, o governo chinês gastou cerca de US$ 200 bilhões em IA e tecnologias associadas. Esse investimento massivo visa garantir que empresas estatais tenham os meios para criar e usar soluções de IA.
• Empresas Líderes: Empresas como Baidu, DeepSeek e as "Six Tigers" (Stepfun, Zhipu, Minimax, Moonshot, 01.AI e Baichuan) estão na vanguarda, algumas focando em aplicações de consumo e outras impulsionando a pesquisa fundamental, apesar das restrições dos EUA. A DeepSeek, por exemplo, criou modelos que competem com sistemas de IA americanos de ponta, mas com um quarto do custo e consumo de energia.
• Integração Setorial e Vantagem de Dados: A China promoveu a rápida disseminação de usos da IA na vida diária, com reconhecimento facial, cidades inteligentes e sistemas de vigilância alimentados por IA sendo onipresentes. A estratégia de IA chinesa é amplamente dependente de seu acesso a vastos volumes de dados, impulsionado por uma vasta população e regras menos rigorosas de privacidade de dados.
• Arquitetura de Governança e Políticas: A governança da IA na China é centralizada no design, mas descentralizada na implementação. Ministérios como o MOST, MIIT e CAC coordenam políticas de IA nacionalmente, enquanto alianças industriais e plataformas de inovação facilitam a colaboração com empresas de tecnologia. Cidades como Pequim e Xangai funcionam como "sandboxes regulatórios", permitindo adaptação regional e experimentação. Instrumentos de política incluem fundos de investimento público, incentivos fiscais, recursos de computação subsidiados e mandatos de aquisição.
• Desenvolvimento de Talentos: A China está construindo uma profunda cadeia de talentos em IA através de programas universitários expandidos (mais de 345 universidades oferecem cursos de IA), iniciativas STEM do K-12, políticas de requalificação profissional e recrutamento global, incluindo programas como o "Thousand Talents Plan". Em 2022, a China formou mais graduados em IA do que qualquer outro país.
• Infraestrutura Soberana de IA: A China investe em uma pilha de infraestrutura de IA soberana, incluindo estruturas de governança de dados (como a Administração Nacional de Dados), clusters de computação nacionais (iniciativa "Eastern Data, Western Compute") e ecossistemas de chips domésticos (como os processadores Ascend da Huawei e Kunlun da Baidu).
• Quadro Regulatório Extenso: A China implementou um dos regimes regulatórios de IA mais abrangentes do mundo, abordando responsabilidade algorítmica, síntese de conteúdo e IA generativa. As "Medidas Provisórias para a Gestão de Serviços de IA Generativa" de 2023 exigem que os desenvolvedores de modelos obtenham uma licença antes do lançamento público, garantam que os dados de treinamento sejam legais e que os modelos alinhem-se aos "valores socialistas centrais".
• Engajamento Internacional e Segurança: A China está moldando as normas globais de IA através da diplomacia multilateral, padronização internacional e exportação de infraestruturas digitais (como a iniciativa Rota da Seda Digital). A IA é parte integrante da estratégia de modernização militar da China através da Fronteira Civil-Militar (MCF), onde a P&D civil é utilizada para tecnologias de campo de batalha.
• Desafios: Apesar do rápido progresso, a China ainda depende de equipamentos estrangeiros de semicondutores e GPUs de alto desempenho para treinar grandes modelos, uma vulnerabilidade exposta pelos controles de exportação dos EUA. A China também ainda está atrasada na qualidade da pesquisa original em IA em áreas teóricas de fronteira.
4. Europa: Em Busca de uma "Terceira Via"
A Europa, apesar de seus pontos fortes como universidades de classe mundial e expertise em tecnologia profunda, corre o risco de ser marginalizada na corrida da IA.
• Lacunas e Desafios: A Europa luta para consolidar suas ambições em IA em uma estratégia singular, resultando em subinvestimento e fragmentação de mercado por fronteiras nacionais, idiomas e discrepâncias regulatórias. A burocracia também atrasa o progresso, com startups europeias esperando meses ou anos por aprovações e investimentos, em contraste com semanas nos EUA e na China. Há uma preocupante "fuga de cérebros", com talentos de IA se deslocando para os EUA e a China.
• Iniciativas Europeias: O Presidente francês Emmanuel Macron anunciou um investimento de €109 bilhões em IA do setor privado, o mais ambicioso financiamento de IA na história da Europa, visando impulsionar o ecossistema doméstico de IA da França e construir centros de pesquisa. No entanto, essa visão audaciosa apenas ressalta o problema mais amplo da UE: a falta de uma estratégia unificada.
• A "Terceira Via" de Macron: Macron propõe uma "terceira via" no desenvolvimento e implantação da IA, um terceiro polo de poder de IA para competir e contrabalançar os EUA e a China. Essa "terceira via" não é soberania no sentido tradicional, mas sim o estabelecimento de uma rede internacional de nações que constrói interdependência e apoio mútuo entre seus participantes, bem como independência e autonomia dos EUA e da China, com a Índia como um parceiro primário.
• Pontos Fortes e Potencial: A Europa possui uma concentração per capita de especialistas em IA 30% superior à dos Estados Unidos e quase o triplo da China. O talento em IA na Europa, em média, possui graus acadêmicos mais avançados, com uma proporção significativa de profissionais detendo pelo menos um mestrado. A Índia é uma fonte primária de talentos em IA para a Europa, especialmente em países como Irlanda e Reino Unido. Países do Norte e Oeste da Europa, como Luxemburgo e Suíça, exibem uma proporção maior de talentos internacionais em IA.
• Estratégias Propostas: Para competir, a Europa deve se concentrar em aumentar o investimento em IA doméstica (com uma iniciativa em toda a UE), criar um mercado de IA unificado (modelado no Mercado Único da UE), acelerar a Gaia-X (infraestrutura de dados soberana), e reter/atrair talentos (bolsas, subsídios, incubadoras, vistos acelerados). A Europa pode liderar na IA ética, transformando-a em uma vantagem competitiva, atraindo talentos e negócios que valorizam privacidade e soluções para desafios globais como mudanças climáticas e saúde, baseando-se em regulamentações como a Lei de IA.
5. Tendências Globais e Implicações
A corrida global pela IA está remodelando o cenário tecnológico e as relações internacionais.
• Investimento Global em IA: O investimento global total em IA foi de US$ 252,3 bilhões em 2024, um aumento de 25,5% em relação a 2023. O investimento em IA generativa foi de US$ 33,9 bilhões em 2024, representando mais de 13% do investimento total, um aumento significativo em relação aos menos de US$ 5 bilhões de três anos atrás.
• Uso Empresarial da IA: Em 2024, 78% das organizações reportaram usar IA em pelo menos uma função de negócio, um aumento considerável em relação aos 55% em 2023. O uso de IA generativa em empresas subiu de 33% em 2023 para 71% em 2024. Empresas de serviços profissionais e varejo estão entre as que mais utilizam IA em atividades de vendas e marketing.
• Produtividade e Mercado de Trabalho: Pesquisas indicam que a IA aumenta a produtividade e, na maioria dos casos, ajuda a reduzir as lacunas de habilidades na força de trabalho. Apesar das previsões de substituição de empregos, menos empregadores previram reduções na força de trabalho em 2024 em comparação com 2023. A IA pode equalizar o desempenho dos funcionários, impulsionando a produtividade de trabalhadores menos produtivos, mais novos e menos qualificados.
• Talento Global: A competição global por talentos em IA está se intensificando. O fluxo de talentos em IA para os EUA e a Europa é significativo, com a Índia emergindo como uma fonte primária. Países como Suíça e Alemanha têm as maiores taxas de imigração de talentos em IA.
• IA Responsável e Governança: O ecossistema de IA responsável está evoluindo, mas de forma desigual; incidentes relacionados à IA estão aumentando. Governos globais estão demonstrando urgência crescente na governança da IA, com um aumento de 21,3% nas menções legislativas de IA em 75 países desde 2023, um aumento de nove vezes desde 2016.
• Otimismo e Divisões Regionais: O otimismo global em relação à IA está aumentando, mas persistem profundas divisões regionais. Países como China (83%), Indonésia (80%) e Tailândia (77%) veem os produtos e serviços de IA como mais benéficos do que prejudiciais, enquanto o otimismo é menor em países como Canadá (40%), EUA (39%) e Holanda (36%).
• Riscos e Oportunidades: Os riscos da corrida global de IA incluem o desenvolvimento desigual (aprofundando desigualdades entre nações ricas e em desenvolvimento), preocupações éticas e de segurança (como sistemas de armas autônomas) e as "guerras de talentos" que podem sufocar a colaboração. No entanto, a competição também impulsiona a inovação tecnológica, gera benefícios econômicos e oferece potencial para colaboração em desafios globais como mudança climática e saúde.
6. Conclusão
A rivalidade em IA entre EUA e China está redefinindo a paisagem tecnológica global. Para a Europa, este é um momento decisivo; a capacidade de agir rapidamente determinará sua relevância futura. Enquanto os EUA lideram em investimento privado e inovação descentralizada, a China se destaca por sua estratégia de IA liderada pelo Estado, investimentos massivos e integração em larga escala na sociedade e na defesa. A Europa, com seus talentos acadêmicos e foco em IA ética, busca uma "terceira via" que promova a soberania tecnológica através de alianças internacionais.
O futuro da liderança em IA é complexo e multifacetado. A corrida é não apenas sobre o desenvolvimento técnico, mas sobre a influência das regras da futura economia digital, segurança nacional e governança global. Os próximos cinco anos serão cruciais para o destino da Europa em IA, e a maneira como as nações equilibram competição e colaboração determinará se a IA beneficiará a humanidade como um todo.




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