Como transformar os 95% de fracasso em sucesso: a importância da governança e da ISO/IEC 42001 na adoção da Inteligência Artificial
- Carlos Coan

- 7 de set. de 2025
- 4 min de leitura

Um estudo recente do MIT revelou um dado surpreendente: 95% dos projetos de inteligência artificial generativa em empresas não resultam em impacto mensurável em receita ou eficiência. À primeira vista, esse número pode soar como um alerta negativo, mas a realidade é mais sutil: ele revela que tirar valor real da IA não é simples nem imediato. Assim como aconteceu com outras tecnologias disruptivas, a curva de aprendizado é inevitável. O diferencial, no entanto, está na forma como as organizações estruturam sua abordagem.
Mais do que adotar ferramentas, é preciso mudar a mentalidade. O sucesso não vem de soluções prontas ou mágicas, mas da capacidade de experimentar, aprender com erros e criar um ciclo de evolução contínuo. E é aqui que entra um ponto estratégico muitas vezes negligenciado: a governança da inteligência artificial.
O problema das implantações superficiais
Grande parte das iniciativas de IA falha porque é conduzida como um projeto isolado, desconectado da estratégia e dos processos principais da organização. Nesse formato, tecnologias poderosas se reduzem a ferramentas genéricas, usadas sem alinhamento com objetivos claros. O resultado? Baixo impacto real nos negócios.
Outro erro recorrente é investir em áreas que geram pouco retorno, enquanto o maior potencial da IA está em automatizar processos internos, melhorar a eficiência administrativa e oferecer suporte inteligente ao cliente. As empresas que conseguem ir além são justamente aquelas que tratam seus projetos como experimentos estratégicos, com métricas claras, foco em problemas relevantes e abertura para refinar a cada tentativa.
A importância da governança de IA
Se testar, errar e aprender é necessário, criar uma estrutura sólida de governança é essencial para que esse processo ocorra de forma escalável, ética e sustentável. Governança de IA não é apenas um conjunto de regras, mas um sistema de gestão que garante alinhamento entre inovação, estratégia e responsabilidade. Ela envolve quatro pilares fundamentais:
Alinhamento estratégico – garantir que cada projeto esteja conectado a objetivos de negócio mensuráveis.
Gestão de riscos – identificar e mitigar riscos técnicos, regulatórios e éticos.
Transparência e confiabilidade – construir confiança em torno dos modelos e processos, tanto para clientes quanto para colaboradores.
Cultura de experimentação estruturada – permitir erros, mas dentro de um quadro bem definido, que os transforma em aprendizado para evoluções reais.
É aqui que entra uma novidade decisiva: a ISO/IEC 42001, publicada em 2023, tornando-se a primeira norma internacional voltada para sistemas de gestão de inteligência artificial.
ISO/IEC 42001: o marco regulatório da maturidade em IA
Assim como a ISO 9001 se tornou referência em qualidade e a ISO 27001 em segurança da informação, a ISO/IEC 42001 surge para oferecer um padrão global para a governança e gestão da IA.Essa norma dá às empresas um guia claro para estruturar seus projetos de forma responsável e eficaz. Entre seus pontos principais, ela propõe:
Integração estratégica: a IA não deve ser um adendo, mas parte do planejamento central da organização.
Gestão de riscos e impacto: análise contínua dos riscos técnicos (como vieses, falhas e segurança) e dos impactos sociais e regulatórios.
Ciclo de melhoria contínua: cada projeto deve ser avaliado, ajustado e aprimorado periodicamente, alinhado ao avanço econômico e tecnológico.
Ética e responsabilidade: inclusão de princípios que previnam uso indevido, discriminatório ou contrário a boas práticas de mercado.
Mais do que um selo, a ISO/IEC 42001 ajuda empresas a estabelecer processos confiáveis, documentados e auditáveis, antecipando-se a legislações que vêm surgindo em diferentes partes do mundo — como a AI Act europeu.
Da corrida por ferramentas à construção de vantagem competitiva
No cenário atual, muitas organizações ainda encaram a IA como uma corrida por adotar a ferramenta “mais nova” ou “mais poderosa”. Mas o diferencial não está na tecnologia em si, e sim em como ela é aplicada. O verdadeiro valor surge quando a IA é integrada na estratégia de negócios com base em governança sólida.
Enquanto alguns ficam presos em implantações superficiais que rapidamente se tornam obsoletas, empresas que cultivam adaptabilidade, aprendizagem contínua e boas práticas de gestão conseguem gerar resultados práticos, reduzir riscos e conquistar vantagem competitiva.
Além disso, ao estruturar um sistema guiado pela ISO/IEC 42001, a empresa não apenas garante resultados mais consistentes, como também aumenta a confiança de investidores, clientes e parceiros, mostrando compromisso com segurança, ética e inovação responsável.
Conclusão: Liderança, governança e experimentação
O dado de que 95% dos projetos ainda falham não é o fim da história, mas o início de uma necessária transformação. A inteligência artificial tem um potencial colossal, mas exige liderança visionária, governança bem definida e disposição para experimentar.
A ISO/IEC 42001 chega como uma bússola para quem quer ir além da experimentação aleatória e construir resultados sustentáveis e auditáveis. Combinar cultura de experimentação com governança estratégica é o que permitirá que os 5% de sucesso de hoje se transformem na maioria de amanhã.
Em resumo, a adoção de IA não é apenas sobre tecnologia — é sobre mentalidade, método e maturidade. Nessa corrida, não vence quem chega primeiro, mas quem consegue aprender continuamente, medir impacto e governar a inovação com responsabilidade.




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