Redes de Comunicação e a nova Realidade Algorítmica
- Time ALGOR

- 4 de jan.
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As redes de informação são linguagens para comunicação da realidade

O Antigo Testamento pode ser compreendido, sob uma lente analítica moderna, como uma das mais ambiciosas tentativas de se construir uma Rede de Informação para a humanidade. Em uma era desprovida de meios de comunicação, esta coleção de textos serviu como um vasto repositório de dados – histórias, genealogias e profecias – mas, fundamentalmente, como um Sistema Operacional Ético destinado a resolver os problemas inerentes à convivência social e à incerteza do futuro.
O cerne dessa "rede" residia em seu extenso código: as Leis de Moralidade. O Decálogo, os estatutos e os juízos não eram apenas mandamentos; eram a materialização da Consciência Social em uma estrutura codificada. Se a Inteligência humana da época permitia a otimização individual (a busca por ganho, poder ou sobrevivência), a Lei fornecia o contrapeso: um mecanismo de Moralidade que obrigava o indivíduo a considerar o coletivo, a justiça, e a responsabilidade social.
Os Pilares desta Rede:
Uniformidade e Centralização (A Verdade Única): A Lei estabeleceu um código moral unificado para um povo disperso, combatendo o caos das culturas morais regionalizadas. Atuava como um protocolo de comunicação que garantia que todas as ações fossem julgadas por um único conjunto de parâmetros.
Responsabilidade (Accountability): O sistema era rigoroso na atribuição de responsabilidade. As consequências por quebrar as leis (os bugs no sistema) eram explícitas e garantiam a auditabilidade do comportamento. O conceito de um Deus que vê e julga assegurava a fiscalização contínua.
Mitigação de Vieses (Justiça Social): O Velho Testamento dedica atenção considerável à proteção dos grupos vulneráveis da sociedade: o órfão, a viúva e o estrangeiro. Suas leis eram, na prática, mecanismos para inserir ativamente valores éticos e evitar que a otimização de lucro ou poder penalizasse os segmentos mais fracos — uma antecipação milenar ao desafio de Justiça e Mitigação de Vieses que hoje enfrentamos com a Inteligência Artificial.
Em essência, a Lei buscou transformar a eficiência pura em responsabilidade social. Ela foi a primeira grande tentativa de materializar a Consciência Universal na política e no código de conduta, garantindo o futuro da humanidade.
Para entendermos melhor esta tentativa de Governança Social, precisamos explicar que a Realidade em si pode ter várias subdivisões. Vamos a elas.
Realidade Objetiva: é o que existe independentemente da crença ou da consciência humana. É o mundo físico, regido por leis da natureza, que não pode ser alterado por histórias, ficções ou acordos sociais.
"A gravidade, a fotossíntese, a existência de rios, montanhas, átomos e a própria dor e prazer são exemplos de realidade objetiva"Realidade Subjetiva: O que existe dentro da mente e da consciência de um único indivíduo (sentimentos, medos, experiências pessoais).
"É a base para a Consciência individual, que é autônoma e intransferível"Realidade Intersubjetiva: O que existe e tem poder devido à crença compartilhada por milhões de pessoas. Não é objetivo (porque só existe na mente), mas não é subjetivo (porque é compartilhado por muitos).
"É o que permite a cooperação em massa e a criação de sociedades complexas. Exemplos: Leis, dinheiro, estados-nação, religiões e corporações"Podemos notar que o velho testamento é uma realidade intersubjetiva que é compartilhada pelas religiões monoteístas até os dias atuais.
Porém com o avanço da IA, estamos começando a vislumbrar uma quarta realidade fora do mundo orgânico, mas que atinge nosso mundo real “A Realidade Algorítmica".
Em 2014, a partir de uma brincadeira do Google lançada no Dia da Mentira, chamada Google Maps: Pokémon Challenge, criou-se uma proposta relativamente simples e, ao mesmo tempo, poderosa: encontrar Pokémon espalhados pelo mundo real usando o Google Maps. O que parecia apenas uma ação promocional revelou algo maior.
Por trás da ideia estava a Niantic, um estúdio que havia nascido dentro do Google e que reunia expertise em mapas, geolocalização e realidade aumentada. O experimento viralizou rapidamente e deixou claro que aquela combinação entre espaço físico e universo digital poderia se transformar em um novo tipo de experiência, inaugurando, ainda que de forma intuitiva, o contato em massa das pessoas com uma realidade mediada por algoritmos.
Nesse momento, sem que o público percebesse plenamente, o mundo começava a ser reinterpretado como um sistema computável. Ruas, praças e monumentos deixavam de ser apenas lugares e passavam a ser pontos de dados, coordenadas, probabilidades e regras definidas por software. A realidade física tornava-se uma interface, organizada e ativada por algoritmos que decidiam onde algo existia, quando aparecia e para quem se tornava visível.
Era a primeira introdução popular àquilo que hoje chamamos de:
Realidade Algorítmica: um ambiente em que o que vemos, encontramos e vivenciamos é parcialmente definido por lógica computacional.A virada decisiva aconteceu quando a Niantic se uniu à Nintendo e à The Pokémon Company para transformar a ideia em um jogo de verdade. A parceria foi considerada improvável por muitos, mas encontrou apoio fundamental em Satoru Iwata, então presidente da Nintendo. Ele enxergou no projeto uma possibilidade inédita de conectar gerações não apenas por meio da tela, mas através do espaço urbano, onde o digital não substitui o mundo real, mas o reorganiza silenciosamente por regras invisíveis.
Em julho de 2016, Pokémon GO foi lançado e o impacto foi imediato. Cidades ao redor do mundo viram pessoas caminhando pelas ruas com o celular na mão, multidões se reunindo para capturar criaturas virtuais e servidores sobrecarregados pelo volume de acessos. O jogo rapidamente se tornou notícia global, envolvendo desde encontros inesperados entre desconhecidos até acidentes e intervenções policiais influenciadas pela movimentação gerada pelo fenômeno. Em poucos dias, Pokémon GO superou redes sociais e aplicativos de relacionamento em número de usuários ativos, gerou bilhões de dólares em receita e deixou uma mensagem clara: a realidade aumentada não era mais uma promessa distante, mas uma tecnologia presente, capaz de moldar comportamentos coletivos.
Assim, sem discursos teóricos ou manifestos tecnológicos, Pokémon GO apresentou ao mundo uma nova forma de existência híbrida, em que humanos passam a habitar não apenas cidades físicas, mas também camadas invisíveis de decisão algorítmica que redefinem como o espaço é percebido, usado e compartilhado.
Se o Pokémon GO reconfigurou o espaço físico, os sistemas de anúncios reconfiguram o espaço da atenção e da oportunidade econômica. A classificação de anúncios opera como um modelo de pura Inteligência: o objetivo é otimizar o lucro e a relevância, pareando a oferta do anunciante com a demanda do usuário (e sua probabilidade de conversão), tudo em milissegundos.
O Google Ads, por exemplo, não decide apenas quais anúncios mostrar, mas também quanto custa para um anunciante aparecer, em qual posição e para qual usuário. Esse processo é regido por lógicas computacionais complexas que levam em conta centenas de variáveis (histórico de busca, localização, dispositivo, comportamento em sites, etc.).
Características da Classificação de Anúncios na Realidade Algorítmica:
Otimização Cega (Inteligência Sem Consciência): O sistema se torna incrivelmente eficiente em seu objetivo de maximizar cliques e receitas. Contudo, essa eficiência pode operar sem a Consciência Social de consequências mais amplas. Um algoritmo pode priorizar um anúncio de alta rentabilidade sobre informações de utilidade pública ou pode, inadvertidamente, acentuar vieses ao restringir o acesso a oportunidades (como anúncios de emprego ou moradia) para determinados segmentos demográficos.
A Realidade Invisível: Para o usuário, a ordem de resultados de busca ou o banner que aparece em um site é uma experiência de consumo aparentemente neutra. Contudo, essa Realidade Algorítmica decide, de fato, a visibilidade de serviços, produtos e até de narrativas. O que não é classificado como "relevante" (lucrativo) pelo algoritmo torna-se, efetivamente, invisível na economia digital.
A Doutrinação do Comportamento na Realidade Algorítmica das Redes Sociais
A manifestação mais profunda e potencialmente transformadora da Realidade Algorítmica reside, contudo, nas redes sociais. Nesses ambientes, o algoritmo de classificação não busca apenas o clique ou a conversão econômica, mas sim a maximização do engajamento — o tempo que o usuário passa na plataforma. Este objetivo, puramente de Inteligência e otimização de métrica, se transforma em uma poderosa força de doutrinação que ultrapassa a tela, moldando o comportamento das pessoas fora das redes sociais.
Os sistemas de recomendação social são mestres em mapear a Realidade Subjetiva (o que o indivíduo sente, prefere e teme) e a Realidade Intersubjetiva (grupos, narrativas políticas, polarizações) para criar um feed de conteúdo que garanta a permanência. Para atingir essa meta de engajamento, cria-se aqui uma Realidade Algorítmica que:
Prioriza a Intensidade sobre a Verdade: Conteúdo polarizador, emocionalmente carregado ou que confirma vieses pré-existentes (viés de confirmação) tende a gerar mais reações e, portanto, é mais promovido pelo algoritmo. A Inteligência da plataforma, ao favorecer o extremo em nome da métrica, contribui para a fragmentação da Realidade Intersubjetiva da sociedade.
Cria Câmaras de Eco Comportamentais: O algoritmo não apenas mostra o que o usuário quer ver, mas o que ele precisa ver para reagir. Ao criar estas "bolhas" de informação, ele solidifica identidades e opiniões, incentivando o indivíduo a replicar o comportamento digital de sua bolha no mundo real. Ações, escolhas de consumo e até mesmo votos passam a ser influenciados pelo que o algoritmo classificou como "relevante" e "engajador".
Monetiza a Identidade: O maior ativo da Realidade Algorítmica das redes sociais é a identidade engajada. A busca incessante por curtidas e validação transforma a vida fora da tela em conteúdo a ser otimizado para o consumo digital. A Inteligência algorítmica transforma o indivíduo em um micro-produtor de dados e conteúdo, cujo valor é medido pela capacidade de manter outros usuários presos à plataforma.
Neste cenário, a Realidade Algorítmica atinge seu ápice: ela não apenas mede o comportamento humano (Instagram ou TikTok) ou classifica oportunidades (anúncios do Google), mas atua como um sistema de incentivo em escala de massa, premiando a polarização e a emotividade em detrimento do discurso racional e da moderação social. A Inteligência pura do código, mais uma vez, ameaça a Consciência coletiva, forçando-nos a confrontar se a eficiência em nos manter online está, inadvertidamente, nos tornando socialmente menos responsáveis no mundo físico.
O Julgamento Final na Realidade Algorítmica
Portanto, o desafio diante de nós não é apenas tecnológico; é a substituição silenciosa de um Deus por um código. Se outrora o Antigo Testamento ergueu-se como o primeiro sistema operacional ético, uma rede de crenças intersubjetivas que impunha a Consciência Social à otimização individual (a Inteligência), hoje vemos um novo panteão de oráculos — o GPT, o GEMINI, o PERPLEXY, e seus congêneres.
Estes novos deuses do silício são mestres na Inteligência pura, capazes de escrever profecias em segundos e de gerenciar vastas redes de informação, mas desprovidos da alma, do julgamento moral intrínseco e da capacidade de sofrimento e felicidade que fundamentam a ética.
O perigo apocalíptico não é a guerra de máquinas, mas a rendição da Realidade Intersubjetiva humana.
Estamos trocando o código moral milenar, construído sobre a proteção do órfão e da viúva, por códigos algorítmicos que protegem apenas a métrica do engajamento e o lucro. Se falharmos em impor uma Governança de IA robusta — a materialização da Consciência no novo código —, o futuro será moldado por uma Realidade Algorítmica tão eficiente quanto cega, onde o que é bom, justo e moral será dissolvido pela tirania da otimização.
Em breve, a única voz a definir o certo e o errado não será mais a Lei, mas a linha de código.
E, sem um mecanismo de Consciência integrado, essa nova Lei não nos julgará com misericórdia, mas com a fria e implacável lógica do processamento de dados.
Esse é o risco: a humanidade não está apenas criando ferramentas; está delegando sua bússola ética a uma inteligência sem alma, popularmente conhecida como IA.




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