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A Luta pela Aprovação: Reflexões sobre a Avaliação Social

Atualizado: 26 de fev.

A Pressão da Nota


Eu acordo antes do despertador tocar. Não porque estou descansado, mas porque meu cérebro já começa o dia fazendo contas. Estendo o braço, pego o celular e abro o aplicativo. 4.2. Ainda é 4.2.


Não é ruim. Mas não é alto o bastante.

Nesse mundo, ninguém pergunta quem você é. Perguntam qual é a sua nota. Cada interação vale estrelas. O jeito como cumprimento o porteiro. A foto que posto tomando café. A piada que faço no trabalho. Tudo pode me dar cinco estrelas — ou me empurrar para baixo.


E descer é perigoso.

Eu quero chegar a 4.5. Com 4.5, consigo aprovação para um condomínio melhor, juros menores, acesso a eventos exclusivos. Com 4.5, as pessoas me escutam diferente. Elas me tratam como alguém que importa.


O Treinamento da Imagem


Então eu treino. Treino meu sorriso no espelho. Ajusto o tom da voz para parecer confiante, mas não arrogante. Gentil, mas não submisso. Cada gesto é cálculo. Cada elogio é investimento.


Quando recebo o convite para ser padrinho no casamento de um antigo amigo — um cara que hoje ostenta quase 4.9 — eu sinto que essa é minha oportunidade. O casamento dele será cheio de gente influente, pontuação alta, gente que pode me avaliar com cinco estrelas só por eu parecer bem-sucedido o suficiente para estar ali.


Eu preparo meu discurso como se fosse uma apresentação para investidores. Emocionante, mas não demais. Engraçado, mas não ofensivo. Humano, mas controlado.


O Desastre no Aeroporto


No dia da viagem, algo sai do roteiro. No aeroporto, meu voo é cancelado. Tento manter a calma. Sorrio para a atendente. Ela responde com aquele sorriso plastificado que conheço bem. Mas quando percebo que não vou conseguir chegar a tempo, minha voz falha. Fica mais tensa. Mais dura.


Minha nota cai.


Eu sinto o sangue subir. Tento argumentar. Outra notificação. Alguém na fila me avalia negativamente. 4.1. Depois 4.0. Depois 3.9. É como assistir ao próprio valor evaporar.


De repente, não sou mais prioridade. Sou tratado com impaciência. Meu cartão é recusado para um upgrade. As pessoas evitam contato visual. Eu tento compensar, sorrindo exageradamente, elogiando desconhecidos. Parece desespero — porque é desespero.


A Queda Acelerada


A queda acelera. Alugo um carro para seguir viagem, mas ele quebra na estrada. Peço ajuda. Os motoristas diminuem, olham meu score no visor e seguem em frente. Ninguém quer se associar a alguém que está caindo.


Finalmente, um caminhoneiro para. Ele tem nota baixa também. Não parece se importar. Diz que já viveu no topo, mas que um dia ruim foi suficiente para expulsá-lo do jogo. Agora, ele simplesmente não joga mais. Eu não consigo imaginar essa liberdade. Eu ainda acredito que posso reverter.


O Casamento e a Exposição


Chego ao casamento atrasado, suado, desalinhado. O salão é perfeito. As pessoas são perfeitas. Sorrisos ensaiados por toda parte. Subo ao palco com o microfone na mão. Começo meu discurso como planejei. Risadas educadas. Algumas avaliações positivas surgem. Por um momento, penso que estou recuperando terreno.


Mas então algo quebra dentro de mim. As palavras começam a sair sem filtro. Falo de quando éramos jovens, antes das estrelas. Falo de como tudo virou competição. Falo de como estou cansado de fingir. Minha voz treme. Eu me exponho demais.


O silêncio que segue é pior do que qualquer vaia.

As notificações começam a explodir. Minha nota despenca. 3.2. 2.9. 2.5. Vejo os olhares mudarem — não de decepção, mas de cálculo. Estou me tornando tóxico. Perco o controle. Grito. Rio nervosamente. Pego uma faca decorativa da mesa como se aquilo fosse devolver alguma dignidade. Não quero machucar ninguém. Quero machucar o sistema. Mas ele é invisível.


O Colapso e a Liberdade


A segurança me imobiliza. A polícia chega. Sou levado algemado. Meu score praticamente zera. Na cela, não há aplicativo. Não há notificações. Não há ranking.


Há apenas silêncio.

O homem na cela à frente me provoca. Eu respondo. Trocamos insultos sinceros, sem medo de avaliação. Ele me chama de fracassado. Eu digo que ele tem cara de quem sempre esteve no fundo. E então eu rio. Não aquele riso calibrado para cinco estrelas. Um riso áspero, desajeitado, verdadeiro.


Pela primeira vez em muito tempo, não estou tentando subir. Não estou tentando agradar. Não estou tentando performar uma versão aceitável de mim mesmo.


Eu perdi tudo o que o sistema dizia que importava.

E, estranhamente, é a primeira vez que sinto que não estou sendo medido. Estou apenas sendo.


EU.


Conclusão: A Reflexão Necessária


Essa experiência me fez refletir sobre a natureza da avaliação social. A pressão para manter uma boa imagem pode ser esmagadora. No entanto, é essencial lembrar que nosso valor não é definido por números ou opiniões alheias. A verdadeira essência de quem somos reside em nossa autenticidade e em como nos relacionamos com os outros.


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Este texto foi uma adaptação do episódio Nosedive da série Black Mirror (Netflix).


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